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{titleflag:mujer}A Jornada Nacional da Luta das Mulheres Via Campesina , realizada durante a semana da mulher, começou ontem com quatro ocupações de terras no Rio Grande do Sul. As áreas da Aracruz (Santana do Livramento), da Votorantim (Candiota), da Stora Enzo (São Francisco de Assis) e da Boise (Eldorado do Sul) receberam as mulheres que lutam contra o "deserto verde" que se alastra pelo Estado, impedindo a reforma agrária e o desenvolvimento dos pequenos proprietários. A IHU On Line conversou com duas participantes do movimento. Elisabete Witzel estava em Porto Alegre quando nos atendeu. Ela é responsável pelo atendimento à imprensa nos assuntos relacionados à Via Campesina. Já Maria Aparecida Silveira estava participando de uma Assembléia em Santana do Livramento quando concedeu a entrevista.
No início da tarde, o grupo que ocupou as áreas da Aracruz, em Santana do Livramento, foi despejado pelos Policiais Militares. As mulheres e as crianças não puderam almoçar e sairam do local com chuva.
Em São Francisco de Assis, as mulheres deixaram as terras da Stora Enso e se deslocaram para Santa Maria, a fim de prestar suas homenagens a Dom Ivo Lorscheiter, que faleceu na segunda-feira.
Confira as entrevistas.
IHU On Line - Fale sobre essa manifestação que as mulheres da Via Campesina organizaram e que começou hoje com a ocupação dessas quatro áreas?
Elisabete Witzel - A mobilização das mulheres do Rio Grande do Sul faz parte de uma mobilização nacional de luta das mulheres da Via Campesina que, nesse ano, tem como objetivo central mobilizar a sociedade na Luta pela Soberania Alimentar, Contra o Agronegócio. Nesse sentido, as mulheres da Via Campesina ocuparam a área de empresas que estão espalhando o deserto verde no Estado para denunciar que o agronegócio está impedindo a Reforma Agrária, inviabilizando a agricultura camponesa e provocando grandes prejuízos tanto para a biodiversidade do solo e clima quanto para a sociedade gaúcha.
IHU On Line - Porque essas quatro empresas, em particular, foram denunciadas?
Elisabete Witzel - Porque elas são as quatro empresas transnacionais que têm como certo o lucro a partir da matéria prima da celulose, plantando grandes extensões de monocultivo de eucalipto e pínus. Isso tem acabado com a biodiversidade do pampa gaúcho, principalmente. Este fato tem prejudicado principalmente as mulheres que vivem no campo, com os projetos do agronegócio.
IHU On Line - Que conseqüências o alastramento do “deserto verde” pode ter para a sociedade em geral?
Elisabete Witzel - Para a sociedade, o deserto verde diminui, por fazer o monocultivo de uma planta homogênea, a água e aumenta o aquecimento global. Tanto quem vive no campo como quem vive na cidade já sente os efeitos dessas conseqüências. Não sei se você sabe, mas um pé de eucalipto consume 30 litros de água por dia, depois do seu terceiro ano de plantação. Isso significa que em um hectare são plantados 2.500 pés de eucalipto, ou seja, 75 mil litros de água consumidos diariamente. E a chuva que vem para o nosso Estado já não é suficiente para suprir essa necessidade das plantas e dos humanos. Outra questão é a desertificação do solo, pois a água acaba indo embora e a seca diminui muito a produção dos alimentos e a vida dos animais. É importante lembrar também que nenhuma outra planta sobrevive próximo ao pé de eucalipto. O escritor uruguaio, Eduardo Galeano, chama isso de “bosques de silêncio”.
IHU On Line - Por quê a Via Campesina entende que as mulheres são as maiores prejudicadas com essas grandes empresas restringem tanta terra para as monoculturas?
Elisabete Witzel - Porque é a mulher que trabalha nas pequenas propriedades. Ela é a figura mais importante na produção de alimentos em pequenas propriedades. Quando a silvicultura expulsa os agricultores da terra e destrói as famílias, é a mulher quem mais sai perdendo. Além disso, os poucos empregos gerados com o plantio de eucaliptos e pínus é dado apenas aos homens, prejudicando ainda mais as condições de vida da mulher.
IHU On Line - Qual é a principal motivação para estas ocupações?
Maria Aparecida Silveira - Nós estamos aqui, em Santana do Livramento, na Fazenda Tarumã, onde a Stora Enso tem uma grande plantação de celulose. É uma fazenda de mais de dois mil hectares e nosso objetivo central é discutir com a sociedade a soberania alimentar contra o agronegócio, principalmente nessa ampliação, na metade sul, do “deserto verde”. Nós queremos terra para produzir alimentos e não para gerar lucros para empresas transnacionais e outras terceiras, como laranjas.
IHU On Line - Quais são motivações que levaram vocês a escolherem o lema dessas manifestações?
Maria Aparecida Silveira - É porque nós defendemos a vida, as sementes, o alimento e essa monocultura que está sendo implantada está inviabilizando a reforma agrária e excluindo as mulheres, principalmente as camponesas, pois nessas atividades não há trabalho para a mulher.
IHU On Line - O que vocês reivindicam para que essas mulheres não sejam mais prejudicadas?
Maria Aparecida Silveira – Primeiramente, que o dia 8 de março seja lembrado não como um dia de elogios, mas sim como um dia de luta pelos direitos das mulheres. E nós sabemos que, no agronegócio, as mulheres são as mais excluídas dentro da agricultura. Só queremos produzir para o consumo de nossas famílias e, no máximo, para os mercados locais. Nós não produzimos para exportação. Sabemos que 95% do cultivo de celulose é para exportação e não gera nem tributos. Nós queremos terra para produzir alimentos, porque nos preocupamos com o futuro da humanidade.
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